Racionalizando custos em Saúde Mental


continuação…

Talvez isso lhe pareça mais claro, se  o  médico atende para um convênio que imediatamente lhe exige satisfação sobre os exames pedidos ou quando o propagandista lhe sugere a prescrição de um novo produto. Nesse momento lhe vem à mente tudo o que aprendeu e tudo de mais moderno que a Psiquiatria  acrescentou nesse final de século. Será possível uma Psiquiatria científica, asséptica, neutra? A dúvida aumenta ao se perguntar se seu paciente pode arcar com esses custos, se o convênio pode cobrir esses gastos. Ora, não é à toa que os convênios fizeram de tudo para não cobrir gastos com a Psiquiatria. É porque esses gastos são quase incalculáveis para uma seguradora.

O raciocínio do seguro é muito simples. Por exemplo: se 1000 (um mil) pessoas pagam e só uma se acidenta, esse seguro pode ser relativamente barato já que o risco é pequeno. Mas se de cada 10 pessoas, uma delas se acidenta, esse seguro tem que ser mais caro pois o risco é 100 vezes mais alto que o primeiro. E no caso de Transtornos Mentais quantos de nós escaparão de não precisar de cuidados nesta especialidade ao longo da vida? Certamente não os próprios psiquiatras que são os maiores candidatos (junto com os psicólogos) a fazer psicoterapia. Não é à toa que alguns trabalhos, comentando uso de especialidades médicas, dizem que de um Dermatologista ou de um Psiquiatra ninguém escapa ao longo da vida.

Se o colega sai de seu consultório para uma clínica de atendimento externo ou para uma instituição aí ele começa a entender melhor o que significa trabalhar em equipe. E equipe multidisciplinar significa custos do trabalho multiprofissional com todo o material envolvido no trabalho de cada um. E cada instância de serviços tem suas próprias necessidades: uma coisa é um ambulatório, outra é Hospital-Dia, outra é um Lar Abrigado, outra é uma emergência e assim por diante.

Para se ter uma idéia a respeito, em Trieste, considerada cidade exemplo de desospitalização psiquiátrica, se mantém um núcleo de atendimento em saúde mental (do tipo que chamamos aqui CAPS/NAPS) para 50.000 habitantes. Para sermos coerentes com esta proposta teríamos que abrir cerca de 500 CAPS/NAPS na cidade do Rio de Janeiro. Tá bom, não somos primeiro mundo, quer reduzir isso à metade? Quanto custa?

A proposta mais atual que deve sair do Ministério da Saúde para regulamentar Lares Abrigados junto ao SUS fala de casas para doentes mentais crônicos com lotação máxima de 12 pessoas por unidade. Para passarmos a população da Colônia Juliano Moreira (1560 pessoas) para esses modernos dispositivos precisaremos equipar cerca de 130 casas na comunidade e mais os cuidadores necessários! Para o caso de Paracambi-Eiras (1800 pessoas), dentro do mesmo raciocínio precisamos de 150 casas nas comunidades de onde vieram! Quem em sã consciência acredita que os custos serão menores do que os gastos atuais desses Hospitais?

continua…

Anúncios