Racionalizando custos em Saúde Mental


Em editorial da revista Informação Psiquiátrica, volume 18,  nº 1, jan/fev/mar de 1999, órgão oficial da Disciplina de Psiquiatria e Psicopatologia, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Osvaldo Luiz Saide, escreveu artigo com o título, acima.

Sem ter conseguido contatar com o colega, mesmo sem sua anuência, se for o caso, ouso transcrever seu artigo que, apesar de longa data, acredito ser aportuno para os debates do problema nos tempos atuais.

” Ao encerrarmos o milênio, encerramos também a “década do cérebro”. Esta com um grande progresso na compreensão dos distúrbios psíquicos e suas bases biológicas. Nunca os psiquiatras pediram tanto Tomografias Cranianas Computadorizadas, Ressonâncias Magnéticas, Mapeamentos Cerebrais Eletroencefalográficos, etc., para compreensão dos distúrbios de comportamento. Testagem neuropsicológica praticamente deixou para trás o antigo psicodiagnóstico.Marcadores biológicos, monitoramento de drogas, testes biológicos (incluindo anti-HIV e dosagens hormonais) fazem a rotina de muitos consultórios psiquiátricos. Saimos cada vez mais, na prática privada para uma Psiquiatria de orientação médica, uma Psiquiatria Biológica como querem uns ou para uma Neuropsiquiatria como preferem outros.

Foi o tempo em que a Psiquiatria era uma especialidade barata que para funcionar bastava ao Psiquiatra ter uma caneta, papel e ouvidos atentos. Hoje, mais próxima de uma Medicina de ponta, a Psiquiatria está cada vez mais cara. Dificilmente alguém sai de um consultório de um Psiquiatra clínico sem um pedido de exames como já acontecia com as outras especialidades médicas. Afora os exames de seguimento posteriores. Mas não se assuste ainda, pegue sua receita e vá à farmácia. E não se esqueça do cartão de crédito. Os novos remédios para Alzheimer, Esquizofrenia ou Transtornos de Humor são todos produtos importados e o dólar vem subindo assustadoramente.

Mas isso não é nada até você descobrir que não bastam os remédios do doutor mas que seu seguimento precisa ser semanal para adequação do produto às suas necessidades. E que, sem dúvida, não é possível dispensar uma psicoterapia concomitante com outro profissional (em geral, psicólogo) por muitos e muitos anos para poder reorganizar a vida. Ou quem sabe seja melhor frequentar um Hospital-Dia especializado, diariamente alguns meses ? (ou anos ?). Hoje se propõe Hospitais-Dias especializados para quase tudo desde Hospital-Dia para “psicóticos” (em geral, esquizofrênicos), até Hospital-Dia para dependentes químicos, para transtornos cognitivos senis (em especial, Alzheimer), etc.

Ora, diante da sofisticação tecnológica atual dizer dos gastos dos antigos hospitais psiquiátricos é bobagem. Nós não temos idéia (ou fingimos não ter) do que significa gastar no desenvolvimento de uma moderna psiquiatria que não mais asila seus doentes mas propõe-se a tratá-los, recuperá-los e ressocializá-los. Aliás me desculpem, nem falei dos programas de ressocialização com modernos e adequados métodos psicopedagógicos voltados para a adequação ao mercado de trabalho. Isso também é um custo que nem sabemos.

E se bem que a Psiquiatria esteja cada vez mais médico como falávamos no início, ela ao mesmo tempo com a delimitação mais precisa de sua área está abrindo campo de trabalho para mais e mais profissionais no campo da Saúde Mental. Até agora já falei do psicólogo, do psicopedagogo e posso desfilar um rosário de outros profissionais fundamentais também para o andamento dos trabalhos, como enfermeiros, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, musicoterapeutas, etc. Eu mesmo já não tenho cabeça para lembrar de todos os profissionais que podem ser necessários numa equipe de saúde mental.

Se no seu consultório, o médico se ilude pensando que pode resolver tudo sòzinho é porque não se deu conta do quanto sua ação médica é socializada (e social). E isso aparece primeiro no momento que ele pede exames e depois quando prescreve uma receita. Surge assim a própria condição de ser imerso na produção de serviços médicos e na própria indústria da saúde.

continua…

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