O monge e a gata ladra


Em um mosteiro, um monge tinha uma gata que era o seu xodó.

Quando ele fazia suas preces, ela ficava a seu lado, deitada no tapete de orações. No resto do tempo, ela passeava pelo mosteiro, onde todos a conheciam. Ela até entrava na cozinha, mas nunca roubou um tantinho assim de comida.

Então, uma noite, ela chegou perto do forno e roubou um pedaço de carne de uma panela. O criado viu e puxou as suas orelhas. Envergonhada, ela ficou amuada num canto.

Quando o monge soube da notícia, foi conversar com a gata e lhe perguntou :

– Por que voce fez uma coisa dessas ?

Ela então saiu para o jardim e voltou trazendo entre os dentes três gatinhos. Depois, fixando o criado com um olhar de desgosto, foi instalar-se no galho de uma árvore.

O monge explicou ao criado :

– Pegar esse pedaço de carne foi uma necessidade que ela teve porque devia alimentar seus filhotes. Quando passamos necessidades, o que é proibido pode se tornar legítimo. A punição a deixou perturbada. Ela se acomodou no galho porque está zangada com você. Peça perdão a ela e a raiva vai passar.

Entretanto, o criado tentou em vão pedir desculpas e implorar : a gata continuava impassível. Foi preciso que o monge suplicasse para ela descer da árvore e vir ronronar aos pés de seu dono.

Segundo o poeta místico persa Attar (1150-1220)

Discutindo filosofia :

Há alguns anos, uma mãe aflita foi indiciada pela justiça porque roubou para alimentar seus filhos.

O juiz nomeado para julgá-la a absolveu e isso causou uma grande discussão. Você, como o monge do mosteiro, acha que roubar por absoluta necessidade não merece punição ? Quais seriam os limites para essa tolerância ?

Fonte : Fábulas filosóficas, Michel Piquemal e Philippe Lagautrière, Companhia Editora Nacional.

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