A Bondade


As filas estavam longas e o supermercado superlotado de pessoas ávidas para comprarem seus presentes de Páscoa, principalmente, os ovos. Sexta-feira com o tempo nublado e chuva miúda mas persistente.

Fomos, eu e minha mulher, comprar dois ovos para as netas, já que havíamos comprado os dos netos e dos afilhados, anteriormente.

Enfrentar aquelas filas ? Tive vontade de sugerir à esposa que fôssemos embora e voltassemos mais tarde. Ao falar com uma senhora sobre a possibilidade de pagar aqueles dois objetos à sua frente, ouvi um jovem dizer : ” o senhor não quer pagar agora, na minha frente ? “.

Olhei para o jovem, agradeci e pensei : ” não estamos tão mal assim, ainda há esperança “. Conversei com ele e sua mãe que o acompanhava e enquanto esperava a moça do caixa operacionalizar o pagamento descobri que era uma família de classe média e que ele fôra educado ” à moda antiga “.

Fazer o bem ! Ao chegar em casa resolvi escrever esta matéria. Não sabia por onde começar. Dualidade, bem versus mal ? Aprofundar conceitos sobre os estudos teológicos, psicológicos, psicanalíticos, psiquiátricos, sociais, culturais, antropológicos, etc. ?

Atualmente, há quase um modismo (ou um modismo) em que pessoas ” gostam ” de fazer o bem. Elas compram camisetas de campanhas; compram objetos de consumo, principalmente, com sêlo verde; participam de eventos cujos recursos arrecadados são destinados às instituições oficiais ou não, que praticam atividades em benefício do ” bem comum “.

Todavia, o que sabemos sobre a efetividade das ações dessas instituições ? O que se faz, realmente, com os recursos arrecadados, depois da nossa ajuda ? Podemos, então, indagar se essa nossa ajuda não é superficial ?

Será que estamos, verdadeiramente, comprometidos com a necessidade de mudanças profundas nas estruturas políticas, econômicas, sociais ?

O que, então, tem tudo isso a ver com o gesto daquele rapaz do supermercado ? Ora, no meu entendimento, tem tudo a ver.

Imaginemos, assim, que, de repente, tirássemos as nossas capas, nossas vendas e começássemos a agir com autenticidade (sem agressividade, é bom não esquecer), sensatez, equilíbrio; sem arrogância, prepotência, ” sem fazer o jogo dos poderosos “.

Sem ações paliativas que, até, encobrem o valor dessas atitudes porquanto não penetram e, por conseguinte, não modificam as causas primárias da injustiça.

Fazer o bem de fora para dentro ? Pelas circunstâncias do momento ? Por quê dá visibilidade através da imprensa ?

Doar alimentos, por exemplo, a pessoas no mais alto estado de desnutrição é desumano, pois, sabemos que essas pessoas necessitam, na verdade, de alimentos líquidos com vitaminas e sais minerais selecionados por alguém capacitado para essa tarefa.

Banalizar o bem ? Dar bom dia como mera formalidade; escutar o outro por puro interesse; cumprimentar de forma lacônica; estar perto com segundas intenções.

Dar sem querer ditar as regras. Fazer o bem por sentir-se magnânimo, altruísta, caridoso.

Como diz a psicoterapeuta Amnéris Marone, professora na Faculdade de Antropologia da Unicamp : ” a bondade consciente é uma conquista interna, espiritual. Ela só pode ser exercida plenamente quando não encobre desejos de manipulação. O exercício da bondade tambem não pode ser usado para suprir nossas próprias carências de afeto, ou as carências de afeto de outras pessoas. Uma pessoa só é capaz de praticar a bondade real depois que conhece a si mesmo e aceita seu lado mais sombrio, sua própria agressividade e destrutividade “.

Uma pessoa que pratica o bem não precisa ser vista como ” santa “, ” bondosa “, ” justa “, mas que, mesmo com suas dificuldades pessoais, assim procede sem vaidade, sem arrogância. ” Dar sem querer receber “.

Desde nossa infância, se tivemos bons professores (nossos pais, principalmente), aprendemos a ser tolerantes com o mal, com as falhas de outras pessoas e não projetamos nossos erros e dificuldades nas outras pessoas.

Fazer o bem é dar amor.

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