O Inferno e o Paraíso


Um samurai se apresentou, um dia, ao mestre zen Hakuin e lhe perguntou :

– Existe, realmente, um inferno e um paraíso ? E,  se eles existem, onde é que estão as suas portas ?

Hakuin o encarou com olhar provocador e perguntou :

– Quem é você para fazer uma pergunta dessas ?

– Sou um samurai, o primeiro dos samurais…

– Você, um samurai ? replicou o mestre com uma ponta de desprezo. – Você mais parece um mendigo.

Vermelho de raiva, o samurai desembainhou sua espada…

– Ah, é ?! Você tem até uma espada ? Mas é desajeitado demais para cortar a minha cabeça…

Fora de si, o guerreiro ergueu a espada para ferir o mestre. Mas, naquele instante, Hakuin murmurou:

– Aqui se abrem as portas do inferno.

Perplexo diante da tranquila segurança do monge, o samurai recolocou a espada na bainha e curvou o corpo em sinal de respeito.

– Aqui se abrem as portas do paraíso – disse-lhe, então, o mestre.

(Conto do mestre zen Hakuin, século 18)

” Filosofando “

Segundo a filosofia zen, o domínio de si mesmo é a própria base da sabedoria. Portanto, todos os excessos, todas as paixões são descartadas.

E a raiva faz parte disso. No entanto, podemos realmente viver sem excessos, nem paixões ? Às vezes, não existem também raivas positivas e encantadoras loucuras ? Nossa razão pode controlar tudo ?

Fonte : Fábulas filosóficas, Michel Piquemal e Philippe Lagautrière, Companhia Editora Nacional

Anúncios