A Maldade Humana


As pessoas se deixam, facilmente, enganar por informações, muitas vezes, incorretas veiculadas pela imprensa, pelo cinema e pela internet. No “inferno verde” da selva são mostradas cenas, pelo cinema, de lutas sangrentas de um animal contra outros citando como exemplo a luta de um tigre de Bengala com uma serpente e, em seguida, com um crocodilo.

Estudiosos dizem que, em condições naturais, tal fato nunca acontece, até porque nenhum desses animais intervém nos interesses vitais dos outros.

Nos meios científicos ou mais eruditos, não se coloca em dúvida o fato do ser humano mostrar-se como uma criatura agressiva. Sabe-se, todavia, que, “com exceção de certos roedores, nenhum outro vertebrado destrói membros da sua própria espécie”.

Salientamos, muitas vezes, que atos mais impulsivos da crueldade do ser humano são tidos como brutais ou bestiais configurando, dessa forma, um comportamento que poderia ser característico de animais menos desenvolvidos do que os humanos.

O tratamento “selvagem” que damos uns aos outros, todavia, demonstra que esses atos extremados estão, na verdade, circunscritos à nossa espécie que é a mais cruel e implacável que habitou e vive sobre a Terra. Ficamos chocados, horrorizados, até, com notícias veiculadas em jornais, rádios, televisão, revistas e na internet sobre atrocidades cometidas pelo ser humano contra seu semelhante.

A nossa inquietação mais sombria, no entanto, é que sabemos abrigar, dentro de nós, os mesmos impulsos agressivos que levam aos atos mais extremados.

Segundo Konrad Lorenz, “a expressão “luta pela vida” é, muitas vezes, mal interpretada; faz pensar numa luta entre espécies diferentes. Mas na verdade a “luta” em que Darwin pensava, essa luta que faz progredir a evolução, é em primeiro lugar uma concorrência entre parentes chegados. O que faz desaparecer uma espécie na sua forma atual ou o que a transforma noutra é a “invenção” vantajosa que, no eterno mecanismo das modificações hereditárias, favorece por acaso uns ou vários indivíduos”.

Escrever sobre a agressão humana é uma tarefa quase impossível pela abrangência do uso do termo nos mais diversos sentidos. Que o digam os psiquiatras e psicólogos que o usam, pois, a agressão “abrange um círculo muito amplo de comportamento humano”.

Anthony Storr ressalta que “o bebê de cara avermelhada que grita pela mamadeira está sendo agressivo, o mesmo acontecendo com um juiz que dá uma sentença de trinta anos de prisão”.

E, em seguida, o psicanalista inglês, lembra que, “quando uma palavra passa a ser aplicada de maneira tão difusa a ponto de ser usada tanto para a luta competitiva de um jogador de futebol quanto para a violência sanguinária de um assassino, ela deveria ser abandonada ou então ser mais estreitamente definida”.

Não é justo deixarmos de ressaltar, até para não causar polêmicas desnecessárias, que uma criança ao se rebelar contra a autoridade dos pais, principalmente, está sendo agressiva mas, por outro lado, está, também, buscando sua independência, necessária e importante para seu crescimento pessoal.

A Epistemologia nos resguarda de afirmar, categoricamente, conhecimento profundo sobre o assunto, mas a Heurística nos permite indagar se há, unicamente, métodos científicos de investigação sobre o tema ou é possível pensar em “algo” abstrato e transcendente para eliminação dessa “patologia” humana?

Edward Gibbon chama a atenção para o fato de que “existem duas propensões muito naturais que podemos distinguir nas disposições mais virtuosas e liberais, o amor pelo prazer e o amor pela ação. Se o primeiro for refinado pela arte e pela erudição, aperfeiçoado pelos encantos da relação social e corrigido por uma consideração justa da economia, saúde e reputação, ele produz a maior parte da felicidade da vida privada. O amor pela ação é um princípio cuja natureza é muito mais forte e muito mais duvidosa. Êle muitas vezes leva à ira, à ambição e à vingança; mas quando é orientado por um senso de decôro e benevolência, êle se torna o pai de todas as virtudes, e, se essas virtudes são acompanhadas por habilidades iguais, uma família, um Estado ou um império podem dever sua segurança e prosperidade à coragem indômita de um único homem”.

Há que se perguntar, então,: sem um grande dote de agressividade estaria a humanidade no estágio atual, ou mesmo, teria sobrevivido a todas as mais diversas turbulências do seu existir?

O paradoxal de tudo, infelizmente, é que as mesmas condições e/ou qualidades que levaram o ser humano aos êxitos atuais são as mesmas que têm mais probabilidade de destruí-lo.

Não é pertinente para este trabalho trazer à discussão estudos minuciosos de Sigmund Freud, Melanie Klein, Konrad Lorenz, J.P. Scott, Alfred Kinsey e muitos outros. Salientar a agressão na estrutura social, a espontaneidade da agressão, a competição por alimento e a competição por território além da agressão no desenvolvimento da criança e na vida adulta e  da hostilidade psicopática (que é a que nos interessa, neste momento) seria escrever um tratado, trabalho para o qual não estamos devidamente habilitado, seja pela falta de tempo ou pela falta de conhecimento apropriado.

Hélio Pellegrino, médico psiquiatra e psicanalista, põe “lenha na fogueira” ao afirmar que ” a criminalidade é expressão e reação de uma patologia social; constitui um sintoma. Portanto, o combate ao sintoma não remove a causa da doença”.

E Vanessa Cristina da Silva, psicóloga e psicopedagoga, nos faz ver que “uma crise social pode fomentar a criminalidade quando chega a lesar por deterioração os valores sociais capazes de promover a identificação do indivíduo com a comunidade”.

E já foi dito que “enquanto houver uma sociedade que não valoriza e não recompensa as pessoas que nela estão inseridas, o crime terá sempre um espaço nas manchetes de jornal e nas nossas vidas como sintoma de uma sociedade perversa”.

A sociedade, então, está enfêrma. Já dissemos isso em outras matérias publicadas neste blog.

Sabemos que a maldade está em todos os lugares. Sabemos, também, que existem pessoas possuidoras de um visível senso de moral mas que outras não se importam com o sentimento de seus semelhantes e acham que a compaixão é atributo dos mais fracos e, na verdade, é uma idéia sem consistência afetiva.

Essas pessoas sofrem de transtorno de personalidade conhecido como Psicopatia, que não é uma patologia (que é adquirida e pode ser curada), cujo comportamento é alvo de estudos de psiquiatras, psicólogos e outros estudiosos.

Não são caracterizadas como insanas e não se enquadram no entendimento ortodoxo da psiquiatria. Os atos dessas pessoas não são reflexos do seu “adoecer” mas sim da forma calculista, fria do seu raciocínio e da sua ação. São pessoas perigosas.

Apresentam-se como pessoas inteligentes (e são, mesmo), sedutoras. Manipulam pessoas despreparadas com facilidade e se tornam cruéis e frias em seus envolvimentos porque são destituídas de sentimentos elevados. Não são confiáveis porque não têm empatia.

Não sentem emoções positivas como o amor, a generosidade e segundo Ana Beatriz Barbosa Silva, psiquiatra, “os psicopatas pensam muito e sentem pouco; são seres que privilegiam sempre os interesses individuais e/ou oligárquicos mesquinhos e nunca o social  e/ou o coletivo de conteúdo solidário; são incapazes de considerar os sentimentos do outro em suas relações e de se arrepender por seus atos imorais ou antiéticos; são intratáveis do ponto de vista da ressocialização”.

Cuidado, seu melhor “amigo”, hoje, poderá ser o seu pior inimigo, amanhã!

Fiodor Dostoievski, escritor russo, manifestou-se assim, certa vez,: “Comparar a crueldade do homem à das feras é injuriá-las”.

O inimigo pode estar na sala ao lado.

Bibliografia:

Storr, Anthony, A Agressão Humana, Zahar Editores, Rio de Janeiro

Lorenz, Konrad, A Agressão, uma história natural do mal, Livraria Martinfontes Editora, Santos

Revista Mentecérebro, edição nº 202

Revista Psique Ciência & Vida, ano IV, número 45

Silva, Ana Beatriz Barbosa, Mentes perigosas – o psicopata mora ao lado, Fontanar, 2008.

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